Alisson, atacante de 21 anos revelado pelas categorias de base do Atlético, usou as redes sociais para parabenizar o clube pelos 118 anos. O encaminhamento da carreira do jovem, que recebeu as primeiras oportunidades em 2023 e teve protagonismo em 2024, já é visto à distância: ele deixou o Galo em março de 2025 e foi contratado pelo Shakhtar, da Ucrânia, em uma operação de 14 milhões de euros.
O valor da transação recoloca Alisson no quadro das saídas mais expressivas do clube: trata-se da terceira venda mais cara da história atleticana, atrás apenas de Bernard (25 milhões de euros, também ao Shakhtar, em 2013) e de Paulinho (18 milhões de euros, transferido ao Palmeiras). Esse ranking não é apenas simbólico; traduz a persistente dependência do mercado de transferências como fonte de caixa.
Feliz pelos 118 anos do clube; honrado por ter sido parte da história do Galo.
Financeiramente, 14 milhões de euros — algo em torno de R$ 87 milhões na cotação da época — representam um alívio pontual nas contas de qualquer clube brasileiro, mas não resolvem problemas estruturais. A receita extra permite margens para reforços, amortização de dívidas ou investimentos na infraestrutura, dependendo da escolha da diretoria. A decisão sobre o destino desses recursos define se a venda será lembrada como ótimo negócio ou como receita perdida em curto prazo.
No plano esportivo, a saída de um jovem revelado suscita dilemas: vender cedo pode ser racional para equilibrar finanças e manter fluxo de caixa, mas também interrompe processos de continuidade técnica e vínculo com a torcida. Alisson deixou o Atlético com 43 partidas e quatro gols na conta, números modestos que, mesmo assim, confirmam a aposta iniciada em 2023 e confirmada no ano seguinte, quando participou de 35 jogos e integrou a campanha do título do Campeonato Mineiro de 2024.
Há ainda o elemento de mercado: o comprador, Shakhtar, tem histórico de aquisições de talentos brasileiros e estrutura para transitar jogadores no mercado europeu. Para o Atlético, operar com esse tipo de comprador significa reconhecer que o clube ocupa uma posição de exportador de atletas num sistema globalizado, onde a valorização de um ativo pode acontecer rapidamente e criar pressões por vendas oportunas, independentemente do estágio do projeto esportivo.
Levo comigo gratidão e saudade da passagem pelas categorias e pelo time profissional.
O próprio jogador, ao registrar sua mensagem de gratidão e saudade, sinaliza que o vínculo afetivo persiste, mas a trajetória profissional segue outra rota. Publicamente, a lembrança do tempo de formação reforça o discurso de que a base segue cumprindo sua função: revelar talentos. A forma como o clube transforma essas revelações em políticas sustentáveis — seja reinvestindo em base, seja em contratações pontuais — define resultados futuros e a percepção externa sobre competência na gestão.
A lição política e econômica é clara: vendas relevantes dão fôlego imediato, mas exigem transparência e planejamento. A diretoria do Atlético precisa demonstrar que receitas extraordinárias não servirão apenas para tapar buracos, mas para construir um projeto que combine solidez financeira e ambição esportiva. Caso contrário, episódios como a saída de Alisson se repetirão e a fidelidade da torcida ao projeto técnico poderá ser substituída por descrédito nas escolhas administrativas.