O Tribunal de Justiça Desportiva de Minas Gerais (TJD-MG) inicia na noite desta terça-feira a audiência que apura a série de agressões ocorridas na final entre Atlético e Cruzeiro, disputada no último dia 8. Ao todo serão julgados 25 jogadores — 12 do Atlético e 13 do Cruzeiro — além de representantes das diretorias dos dois clubes e do massagista do Galo, Aluizio Carlos dos Santos. A juíza Fernanda Cristina Soares preside o processo marcado para as 19h na sede do TJD.
Os números oficiais da súmula e as convocações revelam uma cena de descontrole: o árbitro Matheus Candançan relatou a confusão e registrou 23 expulsões durante o episódio — 11 do Atlético e 12 do Cruzeiro —, enquanto dois atletas que não foram expulsos, Vitor Hugo e Lucas Silva, também foram intimados a depor. A presença de não expulsos na lista de intimados indica que o TJD busca responsabilizar comportamentos além da sanção imediata na súmula.
O julgamento no TJD-MG vai além de punições: é também um teste de responsabilidade das estruturas que comandam o clube.
O enquadramento jurídico mais provável passa pelo artigo 254-A do Código Brasileiro de Justiça Desportiva, que trata de agressão física, com pena prevista entre quatro e 12 partidas, e pelo 254-B no caso específico de cusparada imputado a Lyanco. Os dois clubes respondem, ainda, por artigos que apontam conduta contrária à disciplina e ofensa à dignidade do desporto, agravando o caráter coletivo do episódio e abrindo espaço para multas e sanções administrativas.
Há, no entanto, limites práticos às penalidades: decisões do TJD-MG normalmente restringem as suspensões ao âmbito da Federação Mineira de Futebol, o que significa que eventual pena afetaria o Campeonato Mineiro de 2027. Em cenários extremos, conforme o próprio CBJD, o TJD pode solicitar ao Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) que a punição seja estendida a nível nacional — caminho pouco habitual, mas juridicamente previsto e que pode ser buscado em caso de gravidade comprovada.
Do ponto de vista esportivo e de imagem, a sessão desta terça aumenta a pressão sobre o Atlético. Com doze jogadores intimados, o clube vê multiplicar-se a cobrança da torcida e do mercado por explicações sobre comportamento, comando e disciplina. Além disso, a presença do massagista entre os convocados e a convocação de dirigentes reforçam que a responsabilização procurará abarcar mais do que atos isolados dos atletas, atingindo estruturas de comando e logística.
A cena no Mineirão expõe falhas de comando e amplia a cobrança sobre Atlético por uma resposta disciplinar clara.
No relato da confusão, as provocações dentro da área nos acréscimos detonaram o conflito: desentendimento entre Everson e Christian, soco de Lucas Romero que derrubou o goleiro, envolvimento de jogadores de linha, goleiros exaltados como Cássio e agressões diretas e repetidas entre Lyanco, Gerson e outros. A atuação dos seguranças e da Polícia Militar foi acionada, mas não conteve de imediato a escalada. O árbitro, sem condições de retomar a partida, encerrou o jogo com o Cruzeiro consagrado campeão mineiro.
A audiência do TJD-MG será um termômetro institucional: além de definir penas individuais e possíveis multas, o julgamento dirá se haverá esforço por uma resposta mais ampla que evite repetição de cenas semelhantes. Para o Atlético, o desfecho pode traduzir-se em desgaste extra, necessidade de mudança de atitude no vestiário e reforço disciplinar. Em campo, a consequência imediata são as incertezas sobre composições futuras em competições estaduais e a obrigação de o clube demonstrar reação organizada à perda de controle na final.