Nesta quarta-feira, coincidindo com o aniversário do clube, Eduardo Domínguez completa o primeiro mês de trabalho cotidiano no Atlético. Confirmado em 24 de fevereiro para suceder Jorge Sampaoli, o técnico começou acompanhando a equipe de um camarote em Porto Alegre antes de assumir de fato no banco. A estreia efetiva no comando se deu na volta da semifinal do estadual, quando o time avançou na disputa de pênaltis após empate no tempo regular. Esse início simbólico desenha duas faces do período: por um lado a expectativa de renovação; por outro a imediata necessidade de ajustes práticos na equipe.
O balanço numérico desse mês é objetivo e pouco indulgente: seis partidas, duas vitórias, um empate e três derrotas, com apenas dois gols marcados e quatro sofridos, o que revela fragilidade ofensiva e dificuldades em impor controle nas partidas. O aproveitamento registrado, abaixo do desejável para quem almeja títulos e boas colocações na tabela, coloca pressão adicional sobre escolhas que ainda precisam ser consolidadas. Resultados em clássicos e decisões regionais, como a derrota para o arquirrival na final do Mineiro, evidenciam o custo imediato da instabilidade para a imagem do projeto técnico.
Quem não se empenhar ficará fora da equipe.
No aspecto de gestão de elenco, Domínguez não tem economizado testes: 22 jogadores já foram acionados desde sua chegada, em busca de uma formação que case com sua proposta de jogo. Apenas cinco atletas foram utilizados em todas as partidas do período — o goleiro Everson, o zagueiro Ruan, o lateral Renan Lodi, o volante Alan Franco e o meia Victor Hugo — sinalizando ao mesmo tempo opções seguras e um núcleo ainda restrito. A rotatividade amplia chances de competição interna, mas também impede que linhas e automatismos se cristalizem em campo, algo que costuma demandar tempo que a temporada nem sempre oferece.
A montagem do setor ofensivo segue como o nó central do trabalho: a criação das jogadas e a definição de um padrão de ataque foram objeto de experimentos. Gustavo Scarpa, que tinha a alcunha de camisa 10 do time, foi titular em algumas partidas mas perdeu espaço nas últimas escolhas; ao mesmo tempo, Domínguez testou alternativas com Igor Gomes e Bernard como meios de variar a construção. A procura por um articulador está no epicentro da adaptação: sem um motor claro, o time tem produzido poucas chances claras, e a baixa produção de gols reflete diretamente essa lacuna.
No comando do ataque, o tratamento a Hulk merece menção específica. Domínguez deixou claro que valoriza o papel do ídolo, mas também que precisará dosar seu uso para preservar rendimento ao longo da temporada — decisão que envolve cálculos médicos e esportivos. Para suprir e testar opções, o técnico experimentou nomes como Cuello, Dudu, Cassierra, Reinier e Alan Minda, com a avaliação interna apontando o argentino entre os que mais agradaram até aqui. Essas tentativas são naturais numa transição, mas prolongá-las sem uma leitura tática cristalina pode frear a consistência coletiva.
Será preciso dosar minutos de jogo de Hulk para manter sua eficiência ao longo da temporada.
O calendário oferece um respiro e, ao mesmo tempo, uma exigência: o próximo compromisso pelo Brasileirão só vem em 2 de abril, diante da Chapecoense fora de casa, o que dá alguns dias adicionais para treinos e ajustes. Há também a perspectiva de retorno de peças importantes em fase final de recuperação, como o zagueiro Vitor Hugo e o volante Maycon, o que pode ampliar as alternativas do treinador. Paralelamente, o clube segue em três frentes oficiais — Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil (próximo confronto contra o Ceará) e a fase inicial da Copa Sul-Americana com Cienciano, Juventud e Puerto Cabello — exigindo um equilíbrio entre experimentação e a urgência por pontos.
A análise política e econômica do mês de Domínguez não pode ser desassociada do campo: resultados insatisfatórios em partidas decisivas abrem espaço para questionamentos sobre planejamento esportivo e cronograma de contratações, com impacto potencial em receitas de bilheteria, ativação de patrocinadores e narrativa pública sobre o projeto. Do ponto de vista técnico, a falta de identidade clara e a alternância de esquemas aumentam o risco de desgaste entre comissão, diretoria e torcida. Se o treinador conseguir transformar testes em um padrão coerente nas próximas semanas, a instabilidade poderá dar lugar a uma evolução sustentável; caso contrário, a pressão por resultados tende a acelerar a contagem regressiva sobre o ciclo de trabalho.