Na mesma semana em que o Atlético-MG viveu o traumático vice da Copa Libertadores de 2024, um movimento oposto ganhava forma nos bastidores: a identificação de Mamady Cissé, jovem guineense observado num torneio sub-21 na Nigéria. Aos 19 anos, Cissé virou aposta rápida e concreta do clube.

O trabalho de captação teve rosto e processo claros. O então coordenador Dennys Diletosso participou da missão, sendo o único scout sul-americano no evento, e enviou ao Galo um vídeo e um relatório técnico que destacavam velocidade, ambidestria, drible e capacidade de jogo em espaços curtos. Na avaliação inicial, ele jogava aberto; no Atlético, foi projetado para se tornar um volante com chegada.

Eu era o único scout sul-americano.

A chegada a Belo Horizonte, em maio de 2025, trouxe plano multidisciplinar: alojamento na Cidade do Galo, acompanhamento social, tradutor, aulas de português e rotina de suplementação e alimentação. A comissão identificou a necessidade de ganho de força e o atleta ganhou cerca de 9 quilos de massa muscular para disputar espaço no elenco profissional.

O projeto seguiu apesar da troca de nomes na estrutura de base: Rodrigo Weber, Erasmo Damiani e Dennys Diletosso já não estavam quando o processo avançou, e a continuidade ficou a cargo do novo coordenador da base e do diretor de futebol. Cissé renovou contrato e teve a recompensa esportiva ao marcar na estreia pela seleção da Guiné.

Além do mérito individual, o caso expõe uma tendência: o mercado africano deixa de ser exceção e entra na rota regular dos clubes brasileiros. Para dar sequência aos ganhos, porém, o Atlético precisa transformar iniciativas pontuais em política institucional estável — sem isso, apostas promissoras viram projetos dependentes de gente, não de sistema.

Ele atuava como extremo no time dele.