A estatística é constrangedora: dez demissões de treinadores em menos de três meses. O efeito midiático — o nome do técnico nas manchetes, o julgamento público, a pressão da arquibancada — tende a exagerar o problema pessoal. Mas analisar cada queda isoladamente é perder de vista o que realmente produz esse ciclo: escolhas de gestão frágeis e um sistema que premia a reação imediata em vez de projetos.
No Brasil, a guilhotina virou ferramenta padrão. Troca-se o comando e, por alguns jogos, a curva de resultados melhora o suficiente para justificar a demissão. Mas esses picos raramente se traduzem em recuperação sustentável. A raiz do problema costuma estar fora do campo: critérios de contratação pouco claros, orçamentos apertados, projetos esportivos mal definidos e falta de responsabilização na diretoria.
Demite-se o técnico por resultados imediatos e não se pune quem errou na escolha.
Para o torcedor do Atlético-MG, a rotatividade tem custo concreto. Instabilidade tática e mudanças frequentes de metodologia atrapalham a adaptação de elenco e o desenvolvimento de jovens. Além disso, decisões precipitadas corroem a confiança entre técnico, atletas e clube — relação essencial para atravessar fases ruins. A paciência, quase sempre requisitada do torcedor, deveria começar pela direção que contrata.
Há também um custo financeiro e de imagem. Contratar e demitir implica pagamentos, reestruturação de comissão e renovação de expectativas a cada troca. No curto prazo, a troca paga-se com resultados momentâneos; no médio prazo, torna-se um obstáculo ao planejamento e ao alcance de objetivos maiores, como consolidação de um estilo de jogo ou formação de um elenco coerente.
A solução passa por profissionalizar processos: definir critérios públicos de contratação, avaliar competências compatíveis com o projeto, reservar prazos mínimos para implementação e, sobretudo, cobrar quem toma a decisão de contratar. Enquanto o treinador for o único sacrifício aceitável, os clubes — e suas torcidas — continuarão pagando pela incapacidade de transformar escolhas administrativas em projetos vencedores.
Enquanto a diretoria não assumir sua parcela de responsabilidade, a guilhotina continuará girando.