A sucessão presidencial de outubro entregará ao vencedor um país cujo motor de demanda já estará aquecido. Entre setembro e outubro de 2026, houve anúncio concentrado de medidas com impacto fiscal — oito apenas num intervalo curto — que, somadas a iniciativas anteriores, resultam em estímulos relevantes à economia. Três levantamentos independentes apontam um intervalo total entre cerca de R$ 250 bilhões e R$ 354 bilhões em benefícios, créditos e renúncias; a IFI estima R$ 298,4 bilhões, dos quais R$ 185,7 bilhões em crédito.
Do ponto de vista macroeconômico, o problema é o timing: grande volume de renda disponível e oferta de crédito em um mesmo começo de ano funciona como um choque de demanda. Parte desses recursos chega a quem gasta a maior parte do rendimento — beneficiários de programas sociais, pequenas empresas e tomadores de crédito — e tende a traduzir-se em consumo imediato. Para o mercado, que já vem revisando previsões, isso complica a trajetória da inflação e reduz margem para cortes de juros no curto e médio prazo.
Há números concretos no cenário que acentuaram a preocupação dos investidores: o pacote do MEI, por exemplo, tem custo estimado de R$ 16,7 bilhões segundo o Poder360; as medidas finais da campanha adicionam pressão fiscal da ordem de R$ 33 bilhões em 2027, sem contar medidas como tarifa zero e subsídios específicos. O risco de calendário também pesa: o subsídio ao diesel vence em 26 de outubro — se renovado, acrescenta cerca de R$ 10 bilhões por mês; se retirado, eleva custos de frete e pressiona preços ao consumidor.
O mercado já reagiu: a projeção para a Selic ao fim de 2027 subiu de 10,50% para 12,00%, e a expectativa de inflação para 2027 passou de 3,80% para 4,30%. Para 2026, o Focus estima IPCA de 5,22% — a quarta alta seguida e acima do teto da meta — enquanto a Selic corrente está em 13,75%, resultando em juro real elevado. Se a demanda se fortalecer no início de 2027, o Copom terá menos margem para reduzir a taxa ou será obrigado a fazê-lo mais devagar, para compensar o impulso fiscal.
As consequências são práticas e políticas: no curto prazo, setores ligados ao consumo doméstico — varejo, serviços, construção e automóveis — devem se beneficiar de um ciclo de vendas mais intenso. No médio prazo, porém, o estímulo concentrado tende a prolongar juros altos, penalizando investimentos sensíveis à taxa e limitando ganhos reais de produtividade. O próximo governo herda estímulos contratados e a necessidade de conciliar objetivos sociais imediatos com a disciplina macroeconômica exigida pelo mercado.