Um levantamento feito pela Consumoteca a pedido do Inter retrata um país em que montar uma reserva financeira ainda é exceção: apenas 23% dizem conseguir poupar com regularidade. Menos de 30% afirmam ter a vida financeira organizada, sinalizando que a maior parte das famílias opera sem margem de segurança para imprevistos.

O estudo associa essa dificuldade a fatores concretos: renda irregular, aumento do custo de vida e forte dependência do crédito. Mais da metade dos entrevistados recorreu a empréstimos ou financiamento no último ano, enquanto quase metade relatou ter tido pedido de crédito negado. Esse mix reduz a previsibilidade do orçamento e transforma a poupança em objetivo inalcançável para muitos.

As consequências vão além do aperto imediato. A ausência de reservas torna famílias mais vulneráveis a choques — perda de renda, doenças ou inflação — e pressiona tanto o setor privado quanto as contas públicas, que acabam lidando com demandas por auxílio emergencial e proteção social. No campo financeiro, a ampla circulação de crédito entre os mais vulneráveis eleva riscos de endividamento e afeta a saúde do mercado de crédito.

A saída passa por medidas múltiplas: ampliar acesso a educação financeira prática, oferecer produtos mais transparentes e menos onerosos, e promover políticas que reduzam a informalidade e a volatilidade da renda. Não é tarefa apenas do indivíduo: governo e instituições financeiras têm papel central para transformar a poupança de privilégio em prática rotineira. Os números, por si, acendem um alerta sobre a necessidade de estratégia coordenada para melhorar a resiliência das famílias.