A queda de Nicolás Maduro e a rápida reforma da lei de hidrocarbonetos em Caracas marcaram uma mudança abrupta na gestão do maior ativo econômico da Venezuela. Em pouco menos de oito meses, o novo governo interino aprovou regras que rompem o monopólio da PDVSA, abre portas a capitais estrangeiros e culminou em um acordo que, segundo o presidente dos Estados Unidos, garantiu controle majoritário de empresas americanas sobre parcela significativa das reservas venezuelanas — número que o governo dos EUA chamou de mais de 65.000 milhões de barris, perto de 21% do total estimado pela EIA.

O recuo do modelo estatal não chega sem herança: a estatal PDVSA nasceu após a nacionalização de 1976 e, depois do pico de produção dos anos 1990 (cerca de 3 milhões de barris por dia), viu a extração despencar para menos de 1 milhão na última década, em meio a denúncias de corrupção e falta de manutenção. A reforma busca atrair investimentos para recuperar capacidade, mas enfrenta o desafio técnico e financeiro de reerguer campos e infraestrutura degradados.

O episódio político que precedeu a abertura — a captura de Maduro por forças especiais americanas em 3 de janeiro, sua detenção em Nova York e as acusações contra ele — acelerou interlocuções que foram impensáveis sob o chavismo. A presidente interina Delcy Rodríguez iniciou negociações com Washington, liberou presos políticos e recebeu representantes do Departamento de Energia dos EUA, sinais de uma guinada estratégica que redefine inimigos históricos em parceiros operacionais.

As consequências são múltiplas: a entrada de empresas estrangeiras pode recuperar produção e receitas fiscais, mas transfere parcela do controle estratégico e põe em xeque a soberania sobre recursos. A narrativa oficial chavista sofre fratura, enquanto mercados e consumidores americanos podem se beneficiar das promessas de queda do preço da gasolina. Resta acompanhar os termos dos contratos, o retorno fiscal para a Venezuela e o impacto geopolítico na América Latina — mudanças que reconfiguram poder, renda e risco institucional.