Ao solicitar habilitação como terceira interessada na análise da SG‑Cade, a Abra — grupo que controla Gol e Avianca — questiona o caráter da operação anunciada entre Azul e American Airlines. A petição, apresentada ao órgão antitruste, sustenta que a transação não corresponde a um mero investimento financeiro minoritário e pede que o acordo seja visto à luz de uma possível aquisição coordenada de controle em rotas Brasil‑EUA. A operação foi formalmente notificada ao Cade no início de abril, após decisão que havia permitido aumento da participação da United na Azul algumas semanas antes.
No documento, a Abra destaca medidas de governança que, na sua visão, demonstram capacidade de influência duradoura por parte de American e, de forma conjunta, da United. A criação de um Comitê Estratégico na Azul e a presença de representantes no conselho são citadas como sinais de integração além de um aporte passivo. Para o grupo, a combinação de três das cinco maiores aéreas — que historicamente responderam por mais de metade do mercado — tende a reduzir a contestabilidade e a limitar acordos comerciais com outras companhias, o que pode diminuir opções de origem e destino para consumidores.
O pedido de participação no processo recebeu reforço do IPSConsumo, que também requereu ingresso como terceiro interessado e apontou indícios de gun‑jumping (integração prematura), entre eles a eleição de um executivo da American para o conselho e comitê estratégico da Azul, a assinatura de contratos de subscription de warrants e declarações públicas sobre atuação em momentos de reorganização judicial (Chapter 11). A Azul, nas peças do processo, afirma que as negociações são independentes e incertas, defendendo o caráter não vinculante da proposta.
A controvérsia desloca a discussão para o campo prático: cabe ao Cade avaliar se as alterações societárias efetivamente reduzem rivalidade e prejudicam consumidores, e se medidas mitigadoras ou investigação aprofundada são necessárias. O episódio acende um alerta para a regulação do setor e para a governança de futuras alianças transnacionais, com potencial impacto sobre tarifas, oferta de rotas e espaço competitivo das companhias brasileiras.