As negociações entre Mercosul e União Europeia, iniciadas informalmente em 1999, chegaram a um marco nesta sexta-feira (1º): a parte comercial do acordo de livre comércio entrou em vigor de forma provisória. O movimento decorre da conclusão de trâmites internos no Mercosul e da troca formal de notificações entre as partes, mas não dispensa a necessidade de ratificação plena pelos parlamentos europeus para que pilares políticos e de cooperação sejam ativados sem reservas.
O tratado foi gestado por cerca de 25 anos e reúne interesses assimétricos: o Mercosul, com destaque para o agronegócio brasileiro; a UE, com uma base industrial mais consolidada. Para destravar a aprovação, o Parlamento Europeu aprovou regras internas de salvaguarda para produtos agrícolas sensíveis, como carne bovina e aves — uma resposta direta às manifestações de agricultores europeus e às reservas da França e de outros países que temiam competição direta.
A implementação provisória reduz barreiras e promete acelerar exportações sul-americanas, sobretudo do setor agrícola, enquanto amplia o mercado para bens e serviços europeus. Mas o ganho econômico convive com risco político: a resistência de capitais rurais na França, a oscilação da Itália e a pressão de eurodeputados que buscaram exames jurídicos adicionais revelam que a estabilidade do acordo depende de um processo político ainda frágil no interior da UE.
Do ponto de vista brasileiro e do bloco sul-americano, a entrada em vigor provisória é vitória diplomática e oportunidade comercial. Resta, contudo, a necessária prudência: sem a ratificação final, impulsos de curto prazo nas exportações podem conviver com incertezas regulatórias e possíveis medidas compensatórias europeias. Para governos e empresários, o desafio imediato é transformar o ganho de mercado em vantagem sustentável, enquanto se monitora o desenrolar político em Bruxelas.