Relatórios e entrevistas com agências de classificação de risco indicam que a combinação de inflação persistente e juros elevados está corroendo a capacidade de pagamento das famílias brasileiras. Apesar de um mercado de trabalho que ainda mostra sinais de resiliência, o aumento do custo do crédito afeta especialmente quem depende de empréstimos sem garantia ou contratos de taxa flutuante, segundo especialistas ouvidos pelas casas de rating.
As agências reconhecem que, por ora, o quadro não representa uma ameaça imediata à estabilidade financeira, mas alertam para riscos de médio e longo prazo. Entre as causas estruturais está a elevada participação de dívida com indexação e taxas variáveis, além de mercados de crédito segmentados que reduzem a transmissão plena das decisões do Banco Central. O BC já interrompeu um ciclo de alta, mas a Selic segue em patamar historicamente alto — e mesmo com cortes graduais previstos por alguns analistas, o impacto sobre os custos reais do crédito tende a ser lento.
Os dados do Banco Central reforçam a tensão: houve recorde de saques por pessoas físicas em dezembro de 2025 e, em janeiro, a parcela de famílias com renda comprometida para quitar dívidas atingiu o maior nível da série histórica. A oferta de linhas fáceis, como consignado para trabalhadores CLT, ampliou o acesso ao crédito, mas também criou um ambiente mais propenso a acúmulo de dívidas não produtivas. Especialistas citam a falta de letramento financeiro e lacunas regulatórias como elementos que intensificam o problema.
O quadro tem implicações políticas e econômicas claras. Se o endividamento e o crédito de baixa qualidade seguirem em alta, há risco de pressão sobre o crescimento, sobre o sistema bancário e, em última instância, sobre a avaliação de risco soberano do país. O diagnóstico das agências acende alerta para a necessidade de ações coordenadas: maior fiscalização e regulação do crédito, programas de educação financeira e políticas fiscais que reduzam vulnerabilidades sem estimular endividamento imprudente. A opção por medidas paliativas pode adiar a conta e ampliar o custo político e econômico no futuro.