Um caso em Nova York ilustra um risco crescente: ao pedir ao assistente de IA Instinct que encontrasse uma mesa no 4 Charles Prime Rib, um investidor teve sua conta na plataforma Resy bloqueada depois que o bot disparou notificações repetidas. A reação — a plataforma afirmar que não permite agentes não autorizados — não é exceção. Aplicativos desse tipo vêm ganhando capital e usuários: a Instinct levantou US$ 350 milhões e a Meta colocou no mercado o Muse, já com milhões de downloads. Ao mesmo tempo, serviços exclusivos e mercados secundários de reservas, como Dorsia ou operadores informais, já criaram vantagens para quem tem mais dinheiro ou acesso.

O impacto econômico e social é claro: ao automatizar buscas e tentativas incessantes por vagas, esses agentes tendem a aprofundar um sistema de hierarquia de acesso. Donos de restaurantes e chefs alertam para a 'desumanização' do atendimento e para a frustração de públicos que veem mesas desaparecerem para quem dispõe de bots ou de intermediários caros. A substituição de contatos diretos por plataformas centralizadas torna casas menores mais vulneráveis — elas perdem controle sobre a fila de clientes e enfrentam custo adicional para identificar e bloquear tráfego automatizado.

Do ponto de vista das plataformas, a resposta imediata tem sido técnica e contratual: limitar agentes não autorizados, bloquear contas suspeitas e reforçar termos de uso. Essas medidas, porém, geram efeitos colaterais: consumidores legítimos podem ser banidos por engano, aumenta o atrito na experiência do usuário e abre-se espaço para modelos de receita que privilegiem assinantes e clubes pagos. O resultado provável é uma transferência de poder e renda para quem opera grandes plataformas, serviços premium e intermediários dispostos a pagar por prioridade.

A solução exige coordenação entre restaurantes, plataformas e reguladores: políticas claras sobre uso de credenciais, limites técnicos para requisições automáticas e transparência sobre critérios de bloqueio. Sem isso, a adoção crescente de agentes pessoais de IA pode elevar custos operacionais para estabelecimentos, concentrar vantagens em quem tem capital e corroer a confiança dos consumidores no ecossistema de reservas. Para o mercado, o desafio é equilibrar conveniência e eficiência com equidade de acesso — e evitar que a tecnologia transforme um serviço cotidiano em mais um produto de privilégio.