A participação de investidores estrangeiros na Bolsa brasileira recuou para 57,7% em agosto, segundo dados da B3 até 26 de agosto, e caminha para fechar o mês com o menor patamar do ano. Em volume, o mês registra uma saída líquida superior a R$ 18,6 bilhões — o pior resultado mensal pelo menos desde janeiro de 2022 —, enquanto o saldo acumulado no ano permanece positivo, em mais de R$ 22,3 bilhões.
O movimento combina fatores domésticos e externos. No plano interno, voltou ao radar dos gestores o grau do ajuste fiscal que será entregue no próximo ano: a incerteza sobre se as medidas serão suficientes para conter o crescimento da dívida reduz a tolerância ao risco. Externamente, a perspectiva de alta de juros nos Estados Unidos e o apetite por mercados com grande presença de tecnologia — impulsionado pelo novo ciclo de ações ligadas à inteligência artificial — redirecionaram capital para Nasdaq e praças asiáticas.
O impacto sobre o Ibovespa já é visível: o índice acumulava perda de 1,31% até 28 de agosto, resultado que coloca agosto como um dos piores meses do ano. A retirada de estrangeiros amplia a pressão sobre contratos futuros de juros e encarece a projeção para prazos mais longos, reforçando expectativas de juros elevados em 2027 e 2028 e reduzindo a probabilidade de cortes mais robustos da Selic no curto prazo.
Em termos práticos, a combinação entre fuga de capital e juros altos tende a pesar sobre o crescimento econômico, sobre a atividade e sobre o mercado de trabalho, além de aumentar o custo de financiamento do setor público. O sinal é claro para o governo: sem um roteiro de ajuste fiscal crível e transparente, o país permanece vulnerável a saídas de curto prazo que complicam a retomada sustentável da atividade e limitam opções de política monetária.