Em entrevista ao CNN Money, o economista Aod Cunha retomou um ponto central do debate fiscal: um ajuste duradouro das contas públicas só ocorrerá com cortes efetivos de despesas. Para Cunha, a narrativa oficial — agora repetida pela equipe econômica — de que as metas fiscais vêm sendo cumpridas dentro do arcabouço vigente não captura a complexidade das contas.

O diagnóstico do colunista destaca que certos gastos, como alguns vinculados a saúde e educação, ficam de fora da verificação pelo método do superávit primário, o que dilui a percepção de fragilidade fiscal. Na avaliação dele, a situação real é mais delicada do que o discurso governamental sugere, criando um gap entre comunicação e risco fiscal observado por mercado e analistas.

A valorização do real desde 2025 e a entrada de capitais via carry trade, além do enfraquecimento do dólar, deram folga temporária ao debate — acalmando mercados e reduzindo pressão imediata sobre o Tesouro. Mas Cunha adverte que esse alívio é frágil: a trajetória da dívida segue preocupante e voltará ao centro da agenda quando as condições de juros e câmbio mudarem, ou com a redução da Selic.

No horizonte político, o economista é cético sobre a disposição dos candidatos de aprofundar o tema nas campanhas. Um ajuste consistente exigiria escolhas difíceis — aumento de carga tributária ou cortes no crescimento de despesas, revisão de indexadores ou nova reforma da Previdência — medidas que têm custo político e impacto social. O desafio, conclui Cunha, é traduzir necessidade fiscal em propostas críveis, sob pena de postergar um ajuste que acabará pesando mais no futuro.