A disparada dos preços de combustíveis, alimentos e transporte reacendeu a preocupação com um novo golpe sobre a renda das famílias: o reajuste das tarifas de energia. No Planalto há esforço para segurar o repasse ao consumidor — inclusive com a proposta de conceder crédito às distribuidoras — na tentativa de reduzir o impacto imediato sobre o consumo e o humor do eleitor.
A própria Aneel estima que, mantendo o padrão recente, a conta de luz pode subir cerca de 8% neste ano, ante projeção do IPCA em 4,71% segundo o último Focus. Já houve concessionárias que aprovaram aumentos muito acima da média: Roraima Energia (24,13%), Enel Rio (15,6%) e Light (8,6%). Ao mesmo tempo, pesquisa citada no material-base mostra que 36% das famílias gastam mais da metade do orçamento com energia e gás de cozinha — um ponto de vulnerabilidade social.
Especialistas advertiram que empurrar reajustes no tempo não resolve a raiz do problema. Claudio Sales, do Instituto Acende Brasil, lembra que três experiências anteriores de postergação terminaram em tarifas ainda maiores; a carga de tributos e encargos no setor, avaliada em 44,8% por estudo do PwC com o instituto, é parte do encargo que permanece sem solução quando se adiam correções.
A decisão da Aneel na próxima reunião — que inclui deliberações sobre aumentos de 12,1% em Mato Grosso do Sul e 5,18% na Bahia — traduz um dilema político e econômico: segurar reajustes dá alívio temporário, mas amplia desgaste futuro e complica a gestão da inflação. Para o governo, a tentativa de adiar o impacto troca custo eleitoral imediato por risco de pressão inflacionária e tarifária maior adiante.