Depois de anos de promessas sobre ganhos de eficiência, a Anbima deu um passo concreto: selecionou 20 propostas para um piloto de tokenização voltado a debêntures e fundos de investimento. A iniciativa visa testar se tecnologias DLT e contratos inteligentes podem automatizar etapas como custódia, escrituração, transferência e liquidação sem prejudicar a governança.
O teste ocorrerá em uma rede DLT privada e permissionada coordenada pela associação, sem movimentação de dinheiro real ou participação de investidores — uma escolha prudente, mas que limita a capacidade de medir efeitos sobre liquidez e custo real. O exercício é essencialmente técnico e operacional, pensado para gerar evidências antes de decisões sobre padronização ou adoção em escala.
Das 20 propostas, 10 simulam fundos e debêntures na mesma infraestrutura, sete tratam de debêntures nativamente digitais e três focam em automação de fundos por meio de smart contracts. Entre os participantes aparecem grandes bancos e players de mercado, como Itaú Unibanco, BTG Pactual, B3, Bradesco, Banco do Brasil, Caixa, Santander, Mercado Bitcoin e IBM, o que confere relevância ao piloto.
Apesar do entusiamo do setor pela promessa de redução de prazos e custos, persiste uma lacuna entre teoria e aplicação regulada. A principal interrogação é se a tokenização, aplicada aos ativos existentes, de fato entrega ganho líquido quando considerada a complexidade de integração, controle e riscos operacionais. O piloto pretende mapear esses gargalos até outubro.
Se os resultados forem promissores, a Anbima poderá ampliar testes para outras classes de ativos. Para o mercado e para o regulador, o desafio será transformar evidências técnicas em padrões que preservem proteção ao investidor sem engessar inovação — um equilíbrio que terá impacto direto em custo, eficiência e competitividade do mercado de capitais brasileiro.