A possível prorrogação das cotas que dão benefícios fiscais à importação de veículos eletrificados, em pauta na Camex, reacendeu tensão entre governo e indústria. A Anfavea anunciou que avaliará judicializar a medida caso o Comitê aprove a extensão — argumento central: a decisão quebraria o cronograma acordado no ano passado, com fim das isenções a partir de 1º de julho e retorno da alíquota plena do Imposto de Importação.
A associação sustenta que a facilitação contínua para entrada de carros prontos e semiprontos favorece marcas que importam em grande volume e penaliza fabricantes nacionais que investiram em produção local. A entidade quantifica o choque em R$ 240 bilhões em um ano, detalhando perdas na cadeia de autopeças (R$ 129 bilhões), impacto direto no mercado de trabalho (R$ 17 bilhões e 69 mil vagas nas montadoras), efeitos indiretos (R$ 52 bilhões e 227 mil empregos) e queda nas exportações (R$ 42 bilhões).
Do lado produtivo, a reação se organizou: Sindipeças, federações estaduais, centrais sindicais e Fiesp pressionam por adiamento da pauta para permitir “discussão ampla”. O receio é a chamada transformação da indústria de alta para baixa complexidade, com linhas locais reduzidas à montagem de kits importados em vez de manter engenharia e cadeia de fornecedores domésticos — um ponto sensível diante dos R$ 140 bilhões prometidos em investimentos pelas montadoras até 2033.
Politicamente, o tema expõe o governo a um dilema entre liberalização comercial e defesa da indústria, enquanto a possibilidade de judicialização aumenta o custo político e institucional da decisão. Especialistas e representantes do setor cobram transparência técnica e prazos para debate, sob o risco de que uma solução apressada amplie perdas fiscais, de emprego e concentração de oferta em mãos de importadores.