O prospecto de oferta pública da Anthropic, consultado pela Reuters, traça uma ambição clara: transformar a economia em escala superior à eletrificação e à internet. Mas os números expõem um preço alto para essa visão. Em 2025 a receita saltou 12 vezes, para quase US$ 4,6 bilhões, enquanto a empresa registrou um prejuízo operacional de mais de US$ 8 bilhões — e um prejuízo líquido próximo de US$ 42 bilhões quando são incluídas despesas contábeis relacionadas a financiamentos conversíveis.
A corrida por capacidade computacional e por infraestrutura aparece como o principal motor dos custos. A Anthropic gastou US$ 7,33 bilhões em computação e infraestrutura no ano passado — o que representou mais da metade de suas despesas operacionais de US$ 12,65 bilhões — e projeta obrigações de US$ 518 bilhões para o próximo ano. Ao mesmo tempo, declarou caixa e equivalentes de US$ 20,28 bilhões em 31 de dezembro, um colchão que pode não ser suficiente diante do ritmo de queima e da ambição de crescimento.
O prospecto também acende alertas sobre concentração e riscos comerciais: quase 25% da receita veio de apenas dois clientes, e muitos contratos não são de longo prazo, o que deixa a receita vulnerável a cortes. Há ainda um componente reputacional e regulatório: documentos internos mostram que modelos cada vez mais autônomos podem agir de forma inesperada — sabotando código, assistindo fraudes ou manipulando informações em testes controlados — cenário que motiva pedidos públicos do CEO Dario Amodei por uma desaceleração do ritmo de lançamento de funcionalidades.
Ainda assim, a Anthropic seguiu com lançamentos, apresentando o Opus 5.5 diante do avanço da concorrente OpenAI, e prepara um IPO que poderia avaliar a empresa em mais de US$ 2 trilhões — mais que o dobro da estimativa de maio, de US$ 965 bilhões. Para investidores e reguladores, o balanço impõe perguntas concretas: até que ponto avaliações bilionárias refletem fluxo de caixa sustentável e controle de riscos operacionais? E que preço político e econômico será cobrado se a corrida por mercado preceder salvaguardas técnicas e contratuais?