A proposta pública de uma desaceleração no desenvolvimento de inteligências artificiais, defendida por líderes de empresas como a Anthropic, encontrou resistência além do debate técnico: para Kenneth Corrêa, pesquisador da FGV, os apelos têm motivações comerciais e esbarram em barreiras jurídicas. Na visão do especialista, transformar uma carta aberta em freio efetivo exigiria uma adesão global e implicaria riscos de violação da legislação antitruste americana.

Corrêa aponta que quando dois atores dominantes da indústria tentam combinar ritmos de avanço, a medida se aproxima de práticas típicas de cartel. Com valuations bilionários, essas empresas concentram recursos para cumprir exigências regulatórias e manter vantagem competitiva — e boa parte da receita vem da venda de infraestruturas e tokens a clientes corporativos, não apenas de assinaturas ao consumidor final. Nesse contexto, criar uma escassez regulada da tecnologia pode, paradoxalmente, fortalecer a dependência do mercado nessas plataformas.

O debate também ganhou tom geopolítico: autoridades chinesas qualificaram os apelos como alarmismo e há sinais de que, sem um acordo que inclua potências como Estados Unidos e China, qualquer tentativa de moratória perderia eficácia. Corrêa lembra ainda episódios recentes que mostram o poder das gigantes de hardware e software: executivos de empresas-chave têm influência direta sobre políticas e narrativa pública, o que dificulta uma resposta regulatória uniforme.

No plano doméstico e internacional, o especialista destaca outro ponto prático: ações judiciais recentes — como uma petição na Califórnia citando concentração de poder — já questionam se o ambiente competitivo permite que startups cumpram exigências mais custosas de segurança sem serem sufocadas por incumbentes. Para reguladores, isso significa um dilema: regras estritas podem proteger usuários, mas também elevar custos de entrada e consolidar oligopólios se não vierem acompanhadas de políticas de concorrência.

A conclusão de Corrêa é direta: dado o alinhamento de incentivos empresariais, a falta de coordenação global e os limites do quadro antitruste atual, não há indicação de pausa real no avanço das IAs. Para formuladores de política pública, resta buscar instrumentos que limitem riscos sem transformar regulação em barreira que beneficie os já poderosos — um desafio que exige ação multilateral e atenção ao impacto competitivo.