A Confederação Nacional do Comércio (CNC) afirma que o comércio brasileiro deixou de faturar o equivalente a dois Natais — cerca de R$143,82 bilhões — nos últimos dois anos em função do redirecionamento de gastos para apostas online. A entidade compara esse montante ao padrão de vendas natalinas, estimado em aproximadamente R$70 bilhões por temporada, e calcula que o impacto corresponde a 2,5% do total de vendas registradas desde janeiro de 2023, quando o fluxo financeiro das bets passou a ser monitorado oficialmente.

O estudo aponta que o uso do orçamento familiar em plataformas de apostas afeta três dimensões centrais das finanças domésticas: aumento do endividamento total, maior ocorrência de inadimplência severa e ampliação do tempo médio necessário para quitar dívidas. Segundo a CNC, parcela relevante da renda que poderia quitar compromissos ou sustentar consumo passa a ser direcionada a apostas, o que reduz circulação de recursos no comércio e pressiona a recuperação do setor.

O levantamento identifica perfis mais vulneráveis: famílias de renda baixa — entre três e cinco salários mínimos — são as mais impactadas, assim como homens, pessoas acima de 35 anos e indivíduos com ensino médio completo ou superior. A entidade ressalta, porém, que as bets não são as únicas causas do problema do endividamento; tratam-se de um fator que se soma a outros desdobramentos econômicos e financeiros que estrangulam a renda e reduzem o ritmo de consumo.

Do ponto de vista econômico, a constatação da CNC acende um alerta para varejistas e formuladores de políticas: além do efeito direto sobre o volume de vendas, o aumento da inadimplência e a lentidão na quitação de dívidas podem elevar custos de crédito e limitar a capacidade de recuperação da demanda. A entidade defende tratamento técnico do tema — sem criminalizar a atividade formal — e coloca na agenda a necessidade de combinar educação financeira, proteção ao consumidor e monitoramento do impacto das plataformas no orçamento familiar.