Com mais de 10 mil quilômetros em operação, a malha ferroviária de cargas da Argentina responde por menos de 8% do transporte interno. O governo de Javier Milei voltou a oferecer ao mercado a operação desses ativos pelo caminho das concessões, conforme a Ley Bases, na tentativa de transformar infraestrutura subutilizada em fluxos previsíveis de longo prazo. O desafio não é técnico, mas político e financeiro: reduzir a incerteza que pesa no custo de capital.
O modelo proposto preserva a propriedade estatal dos trilhos e delega a operação por contratos de longo prazo — uma fórmula adotada em países como Canadá e em partes da Europa. A diferença argentina é histórica: a privatização dos anos 1990 terminou em subinvestimento e, depois, em retomada estatal, deixando uma memória regulatória que os investidores precificam. Enquanto benchmarks de concessões em mercados emergentes operam com taxas internas de retorno entre 8% e 12%, avaliações preliminares indicam que na Argentina o intervalo pode subir para 12%–16%, dependendo de garantias contratuais, previsibilidade tarifária e proteção cambial.
O tamanho do cheque necessário agrava o problema. Estudos de consultorias e organismos multilaterais apontam necessidade de US$ 8 bilhões a US$ 15 bilhões na próxima década para renovação de trilhos, material rodante, digitalização e conexão com portos. Ciclos de payback estimados entre 20 e 30 anos tornam o projeto sensível a choques iniciais: qualquer dúvida sobre estabilidade contratual não só eleva a taxa de desconto, como pode impedir o fechamento financeiro, restringindo o universo de interessados a grandes operadores globais e fundos com horizonte muito longo.
O governo aposta que ajuste fiscal e reformas serão âncoras de credibilidade, mas o investidor avaliará cláusulas específicas — reequilíbrio econômico-financeiro, arbitragem internacional, indexação e mecanismos de proteção cambial. Se a percepção de risco recuar, o prêmio cai, o acesso ao capital se amplia e o tempo de maturação encurta. Caso contrário, a memória do mercado permanece como principal determinante de preço e o esforço de reconstrução da ferrovia poderá esbarrar na conta que o mercado exige pagar.