A audiência pública programada para segunda-feira (6) nos Estados Unidos sobre tarifas de 25% aplicadas a produtos brasileiros acendeu um ponto de atenção para exportadores e formuladores de política. Em entrevista ao Agora CNN, o professor José Niemeyer, do Ibmec-RJ, destacou que o foco provável das medidas recairá sobre bens intermediários e industriais — máquinas, equipamentos, produtos metalúrgicos e óleos combustíveis — mais do que sobre commodities alimentares.

Niemeyer exemplifica os efeitos com três categorias distintas: o dianteiro do boi, cuja redução de oferta nos EUA elevaria preços de produtos cotidianos como hambúrgueres; os óleos combustíveis, que entram como insumo em cadeias produtivas; e aviões da Embraer, cujo caráter industrial e sofisticado torna sua substituição mais complexa. Segundo ele, custos sobre insumos tendem a repercutir na competitividade e nas margens das indústrias americanas, motivo pelo qual seriam alvo prioritário.

Além do viés econômico, o professor associa a estratégia a um cálculo político: medidas tarifárias servem também a uma agenda eleitoral voltada ao eleitorado dos setores primário e secundário. A combinação de pressão doméstica sobre empregos industriais e o calendário eleitoral dos EUA pode orientar quais produtos serão efetivamente taxados, tornando a audiência um termômetro político, não só técnico.

Para o Brasil, o diagnóstico é claro e dual: substituição de mercados é mais viável para commodities — caso do redirecionamento rápido a países como Singapura, Malásia, Filipinas, Índia e China observado em episódios anteriores —, mas é muito mais difícil para bens industriais. A sessão de segunda-feira deve, portanto, definir riscos setoriais concretos e exigir respostas diplomáticas e comerciais calibradas para mitigar perdas.