O Banco Central informou que 45,3 milhões de pessoas físicas constam com valores a receber em instituições financeiras, totalizando cerca de R$ 10,6 bilhões em março. Do montante originalmente disponível, R$ 14,6 bilhões já foram devolvidos — R$ 10,7 bilhões a 35,6 milhões de pessoas físicas e R$ 3,8 bilhões a 4,4 milhões de empresas. A maior parte dos saldos é muito pequena: 62,9% entre R$ 0,01 e R$ 10 e 24,2% entre R$ 10,01 e R$ 100.

O governo anunciou que pretende usar parte desses recursos disponíveis na tesouraria do sistema financeiro como garantia do Desenrola 2.0, novo programa de renegociação de dívidas. A equipe econômica estima mobilizar entre R$ 5 bilhões e R$ 8 bilhões. Segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, será publicado um edital para permitir o resgate e o Executivo reserva 10% do montante para pagar eventuais vencedores de ações judiciais no futuro.

A proposta tem implicações políticas e operacionais. Além de levantar questionamentos sobre o uso de valores identificados como pertencentes a cidadãos, a manobra exige transparência e logística para evitar que beneficiários deixem de resgatar quantias pequenas e, inadvertidamente, tenham seus recursos afetados por uma política pública. O cenário pode complicar a narrativa do governo caso haja reclamações ou falhas de comunicação.

O cidadão pode checar gratuitamente a existência de valores no Sistema Valores a Receber (SVR) e solicitar a devolução. A adesão à solicitação automática é facultativa e só está disponível para pessoas físicas com conta.gov.br com selo prata ou ouro e verificação em duas etapas; a função exige também chave Pix vinculada ao CPF. Empresas, por enquanto, não podem habilitar a retirada automática. Diante da proposta de usar esses saldos como garantia, a recomendação é que cada pessoa verifique e, se desejar, resgate seus valores diretamente pelo SVR.