O economista-chefe do Banco Mundial, Indermit Gill, advertiu que a escalada do confronto entre Estados Unidos e Irã pode reduzir o crescimento econômico global para cerca de 1,3%, ante 2,9% no ano anterior. O banco modelou três cenários na previsão de junho; no pior quadro — hostilidades que se estendam por seis meses ou mais — a inflação global poderia subir para cerca de 4,5%.
Gill destacou canais claros de contágio: danos a infraestrutura petrolífera e interrupções no tráfego marítimo — no Estreito de Ormuz e no Bab el-Mandeb — podem restringir embarques de petróleo, fertilizantes, hélio e enxofre, pressionando preços e desencadeando insegurança alimentar. A combinação de inflação mais alta e choque de oferta tende a forçar elevações de juros.
O efeito recai com mais força sobre países de baixa e média renda. O Banco Mundial já apontava que 40% desses países estavam em situação de sobreendividamento ou em alto risco; a relação média dívida/PIB em mercados emergentes atingiu cerca de 74% em 2025. Gill alertou que o aumento dos custos de financiamento reduzirá investimentos em educação, saúde e serviços essenciais, e que parte das nações poderá necessitar de perdão de dívida caso a caso.
Sinais de tensão já aparecem na prática: governos em dificuldades solicitaram reforço de linhas ao FMI, e o Paquistão buscou assistência bilateral. Embora economias como EUA, China e Índia mantenham alguma capacidade de absorver choques, os países em desenvolvimento enfrentam perda de espaço fiscal e maior risco de calotes. Para o setor público, o recado é claro: a crise externa aumenta o custo político e econômico de manter serviços sociais sem ajuste ou apoio multilateral.
A advertência do Banco Mundial, feita pouco antes da aposentadoria de Gill, funciona como um alerta técnico e político. Se confirmados os cenários mais adversos, governos, credores multilaterais e mercados terão pouco tempo para coordenar respostas que evitem uma expansão mais ampla do impacto sobre crescimento, pobreza e estabilidade financeira.