Pela primeira vez desde que o OMFIF começou a consultar bancos centrais, mais instituições planejam reduzir suas reservas em dólar do que aumentá‑las nos próximos anos. A pesquisa, realizada entre março e maio com respostas de 74 bancos centrais, associa a mudança a um aumento do risco geopolítico e à crescente imprevisibilidade da política externa americana.

O levantamento aponta que, embora o dólar ainda domine carteiras — mantendo cerca de 58% das alocações nos últimos cinco anos, segundo a chefe de pesquisa do OMFIF — o sentimento mudou: a geopolítica passou a ser citada como fator principal de desestímulo ao investimento na moeda. A participação do dólar nas reservas caiu para níveis não vistos em duas décadas, segundo dados do mercado citados no relatório.

Na prática, os bancos centrais buscam diversificação. Quase todos os entrevistados vêem o renminbi como instrumento de diversificação e 29% manifestaram intenção de aumentar holdings em euro no longo prazo, contra 22% no ano anterior. Ao mesmo tempo, uma parcela recorde pretende ampliar investimentos em ouro — impulsionada por proteção contra risco geopolítico e dúvidas sobre a estabilidade do sistema monetário internacional.

A migração gradual tem implicações concretas: menor procura por dólares pode, no médio prazo, tensionar o custo de financiamento e a liquidez em mercados atrelados à moeda americana, além de forçar ajustes na estratégia de reservas de países exportadores e importadores. Para formuladores brasileiros, o movimento reforça a necessidade de gestão prudente das reservas e de diversificação que preserve capacidade de intervenção em câmbio e credibilidade fiscal.

O resultado do OMFIF deve ser lido como retrato de um momento, não como previsão definitiva. Ainda assim, a combinação de desdolarização moderada e busca por ativos reais como o ouro acende alerta para a agenda de política externa e monetária global — e para a necessidade de respostas coordenadas em um sistema financeiro internacional cada vez mais fragmentado.