Os quatro maiores bancos do país — Banco do Brasil, Santander, Itaú Unibanco e Bradesco — registraram R$ 44,8 bilhões em despesas com provisões contra devedores duvidosos no primeiro trimestre, número que representa alta de 33% na comparação anual. A conta, que exclui recuperações de créditos baixados para isolar o chamado custo de crédito, reflete dois vetores que vêm pressionando o setor: a política monetária restritiva e a piora do risco no exterior após a guerra no Oriente Médio.

A Selic, que alcançou 15% no ciclo anterior, segue tendo efeitos defasados sobre famílias e empresas, elevando endividamento e forçando os bancos a reverem perdas esperadas. Além disso, a norma CMN 4.966 antecipou o reconhecimento de perdas e tornou mais conservadora a classificação de risco, ampliando provisões mesmo onde a inadimplência formal ainda não disparou. Para analistas da área, trata‑se de um ajuste que deve seguir influenciando resultados nos próximos trimestres.

O Banco do Brasil foi o mais impactado, com custo de crédito de R$ 18,9 bilhões — avanço anual de 86% — e forte deterioração na carteira rural. O agro respondeu por R$ 7,4 bilhões do provisionamento, enquanto a recuperação de créditos ficou em R$ 1,2 bilhão no trimestre, aquém dos R$ 2 bi a R$ 2,5 bi esperados. A inadimplência rural pelo critério acima de 90 dias subiu para 6,22% ante 2,76% um ano antes, o que explica a necessidade de reforço adicional de provisões no banco público.

Nos privados, a degradação foi heterogênea: o Santander teve salto da inadimplência para 3,3% (alta de 0,6 p.p.), o Bradesco registrou aumento mais moderado e o Itaú manteve 1,9% no agregado, ainda que tenha observado maior pressão entre micro, pequenas e médias empresas com o fim de programas de carência. O quadro combina efeitos regulatórios, choques externos e o legado do juro elevado, e tende a pressionar lucros, limitar capacidade de crescimento do crédito e possibilitar repasses de custo ao tomador — desdobramentos com impacto direto na economia real.