O diretor de Política Monetária do Banco Central, Nilton David, afirmou em palestra no seminário do JPMorgan, em Washington, que o atual ciclo de redução da taxa Selic deve ser entendido como um processo de calibração do juro e não como um afrouxamento da política monetária. A declaração foi dada em meio às reuniões de Primavera do FMI e reafirma a posição do BC de manter postura vigilante mesmo com cortes.

Segundo Nilton, a calibragem decorre de um cenário em que tanto a inflação quanto as expectativas estão mais baixas, o que altera o nível necessário de aperto. Ele lembrou que a meta de inflação de 3% é definida por lei e que, embora não exista meta formal para expectativas, seu comportamento é relevante para a tomada de decisão da autoridade monetária.

O diretor citou fatores que influenciaram a economia doméstica desde a pandemia: o avanço da bancarização impulsionado pelo Pix, um padrão de poupança familiar atípico e a necessidade de a União pagar precatórios, que ampliaram a expansão fiscal no começo de 2023. Nilton também retomou o episódio em que o real se enfraqueceu e a preocupação com dominância fiscal levou o BC a elevar os juros em 375 pontos-base naquele período, totalizando 450 pontos-base desde o início do ciclo.

Da perspectiva política e econômica, o recado do BC é claro: a margem para cortes profundos será condicionada pelo comportamento da inflação e pela disciplina fiscal. A calibragem reduz espaço para surpresa na condução dos juros, pressiona o governo a evitar relaxos fiscais e mantém o custo do crédito em patamar que pode tolher consumo e investimento no curto prazo. Para mercados e cidadãos, a mensagem reforça que a autoridade monetária prioriza ancoragem das expectativas antes de declarar um afrouxamento definitivo.