O Banco Central informou aumento expressivo nas operações de crédito em março: as concessões subiram 20,3% ante fevereiro e o estoque total avançou 0,9%, chegando a R$ 7,21 trilhões. A expansão foi disseminada: financiamentos com recursos livres cresceram 19,4% e operações com recursos direcionados, que seguem regras governamentais, subiram 29,3%. No curto prazo, o movimento estimula atividade e consumo, mas carrega sinais de risco que extrapolam o balanço dos bancos.
Os indicadores de qualidade do crédito oferecem leitura mista. A inadimplência nas operações de recursos livres recuou levemente para 5,7% (ante 5,8% em fevereiro) e o spread bancário caiu para 34,6 pontos percentuais. Por outro lado, as taxas médias permanecem altas: o juro do crédito livre estava em 48,3% ao ano em março, enquanto as operações direcionadas passaram a 12,1% ao ano — com alta de 0,7 ponto na média. Esses números mostram um mercado de crédito ainda caro, mesmo com maior oferta, o que repercute diretamente no bolso das famílias.
É nesse contexto que o indicador de endividamento das famílias alcançou 49,9% em fevereiro — recorde desde o início da série em 2005 — e o comprometimento da renda com o serviço da dívida subiu a 29,7%. Os dados acendem alerta político: em ano eleitoral, o governo se vê pressionado a adotar medidas de alívio, como o pacote de renegociação anunciado para a semana. Há precedentes — o programa Desenrola renegociou R$ 53 bilhões em dívidas entre 2023 e 2024 —, mas a repetição de mecanismos semelhantes implica custo fiscal e potencial risco de moral hazard se não vier acompanhada de critérios rígidos.
A combinação entre estímulo ao crédito, juros elevados e endividamento recorde complica a narrativa governista e amplia desgaste político. Do ponto de vista técnico, autoridades terão de equilibrar duas demandas contraditórias: mitigar impacto sobre famílias mais vulneráveis sem abrir caminho para novo aumento de passivos do setor público. No curto prazo, atenção para a execução do novo programa de renegociação, efeitos sobre consumo e inadimplência, e eventuais pressões por suporte fiscal que podem reabrir debates sobre responsabilidade e sustentabilidade das contas públicas.