Em participação no Itaú Latam Day, em Washington, o diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central, Paulo Picchetti, afirmou que o ambiente macroeconômico não apresenta melhora desde a reunião do Copom em março. Sem ter debatido o tema com o colegiado no evento, ele reforçou que a incerteza permanece elevada e que a política monetária mais restritiva tem contribuído para algum arrefecimento da economia.
Picchetti chamou atenção para um movimento recente de desancoragem das expectativas: há um prêmio extra de cerca de 0,5 ponto percentual nas projeções do mercado. Segundo o diretor, esse aumento não se refere ao centro da meta de inflação (3,0%), mas a um componente de risco que já está no horizonte dos agentes. A guerra no Oriente Médio aparece como fator de incerteza adicional, mas o próprio mercado também incorpora dúvidas sobre consolidação fiscal, que ajudam a explicar o prêmio.
Sobre comunicação da autoridade, o diretor foi claro: não há guidance para a próxima decisão sobre a Selic, marcada para o final do mês. A justificativa é prática e reputacional — sinalizar um caminho e não cumprir o prometido teria custo elevado para a credibilidade do BC, especialmente num momento em que choques externos podem deslocar as expectativas. A cautela sinalizada decorre, portanto, tanto de incertezas exógenas quanto da dificuldade de estimar impactos de segunda ordem.
Há também implicações no mercado de trabalho: embora dados globais surpreendam para cima, no Brasil começam a emergir sinais de desaceleração, com expectativa de elevação do desemprego apenas em 2027–2028, segundo Picchetti. Para além do diagnóstico técnico, o recado político é claro: sem sinais de consolidação fiscal e com expectativas pressionadas, o Banco Central fica numa posição delicada — preserva credibilidade ao evitar promessas, mas vê sua margem de manobra e a comunicação política tornarem-se mais custosas.