Um estudo divulgado no blog do Banco Central identifica a combinação entre mercado de trabalho apertado, inércia de preços e expectativas desancoradas como explicação para o desvio da inflação de serviços em relação ao centro da meta. O autor usa uma curva de Phillips aplicada ao núcleo Ex3 Serviços do IPCA para quantificar o efeito desses fundamentos.

O exercício toma dados mensais de dezembro de 2001 a maio de 2026 e conclui que a inflação subjacente de serviços subiu a partir de meados de 2024 e se estabilizou em torno de 6% ao ano — cerca de 2 pontos percentuais acima da "meta ajustada" do grupo, estimada em 4% (o Ex3 tende a rodar cerca de 1 ponto acima da meta central de 3%). O relatório também destaca que a taxa de desemprego observada em maio de 2026 foi 5,38%, enquanto a chamada NAIRU é estimada em 7,2%, o que gera um hiato negativo de cerca de 1,8 ponto.

A leitura do BC aponta que parte da alta é estruturalmente explicada pela menor folga do mercado de trabalho e por efeitos passados de preços e expectativas — fatores que tornam a inflação de serviços menos sensível às medidas temporárias. Na prática, isso acende um alerta para a autoridade monetária: a persistência do núcleo eleva o risco de manutenção de juros mais altos por mais tempo, com custos para consumo, investimento e contas públicas.

Para além da técnica, o diagnóstico tem implicações políticas e econômicas concretas: serviços têm peso relevante no orçamento das famílias e pressão persistente nesse núcleo corrói renda real e complica a comunicação da autoridade monetária. O estudo exclui explicitamente ruídos da pandemia, mas reforça que monitorar expectativas e o comportamento do mercado de trabalho será decisivo para avaliar a duração do ciclo de aperto.