A escalada do conflito no Oriente Médio virou os cenários projetados para 2026 e chega ao centro das deliberações do Banco Central e do Federal Reserve, que iniciam suas reuniões nesta terça-feira (28). Em Brasília e em Washington, a expectativa dos agentes financeiros já se ajustou: pelo mercado doméstico, a aposta majoritária é agora em um corte contido de 0,25 ponto na Selic; nos Estados Unidos, prevalece a previsão de manutenção dos juros.
A velocidade dessa reprecificação é notória. Em 27 de fevereiro, um dia antes do conflito, 66% dos contratos de opção de Copom negociados na B3 sinalizavam um corte de 0,5 ponto; parcela relevante considerava cortes maiores. Em 24 de abril, 86,35% dos investidores passaram a apostar no recuo mais brando de 0,25 ponto, e 10,5% até projetavam manutenção da taxa. O movimento reflete três vetores: preços do petróleo excepcionalmente altos, apreciação do real e fluxos externos que chegaram ao mercado acionário.
Relatórios de mercado — como os do Itaú BBA, HSBC e XP — ressaltam que choques nos preços de energia e leituras de inflação mais altas consumiram espaço para redução de juros. O Itaú BBA destaca a surpresa inflacionária recente e a apreciação cambial ligada à alta do petróleo; o HSBC adota tom cauteloso, condicionando a trajetória de cortes a nova clareza sobre a evolução do conflito; a XP aponta piora nas expectativas e núcleos de inflação em alta. Juntos, esses sinais pressionam o Copom a navegar por um período de incerteza elevada.
Do ponto de vista prático, a mudança de patamar das apostas aumenta o custo temporal da flexibilização monetária: cortes mais graduais significam alívio menor e mais lento para consumo e crédito, além de restringir margens de manobra para a política fiscal. Investidores e autoridades vão reagir às próximas informações sobre preços de petróleo, dados de inflação e o andamento das negociações no Oriente Médio antes que a nova trajetória de juros fique consolidada.