A ata do Copom divulgada nesta terça-feira reforça um cenário de incerteza: o Comitê afirma que a intensidade e a duração do ciclo de calibração da Selic serão determinadas ao longo do tempo, à medida que novas informações forem incorporadas. Os membros destacam que as últimas divulgações de inflação, tanto ao consumidor quanto ao produtor, evidenciaram efeitos claros dos conflitos no Oriente Médio, com leituras acima do esperado.
O documento registra que, diante de expectativas desancoradas, “exige-se uma restrição monetária maior e por mais tempo do que outrora seria apropriado”. Ainda assim, o colegiado manteve a decisão anterior de corte de 0,25 ponto percentual, que deixou a Selic em 14,5%, por entender que a medida é compatível com a convergência da inflação ao redor da meta. A contradição — reconhecer risco de desancoragem e, ao mesmo tempo, seguir com o afrouxamento — acende alerta sobre a necessidade de credibilidade e coerência na comunicação do BC.
No horizonte considerado pelo Banco Central, as projeções trazem inflação acumulada de 4,6% em 2026 e 3,5% no quarto trimestre de 2027; a meta para 2024 é 3% com tolerância até 4,5%. A ata aponta ainda uma desancoragem adicional das expectativas para 2028, o que amplia o custo de erro: cortes prematuros podem obrigar a reversões mais duras no futuro, com impacto direto no custo do crédito e na atividade.
Além do choque externo, o Copom manteve atenção ao cenário doméstico: vai acompanhar efeitos da ampliação da isenção do IR até R$ 5 mil e advertiu que o esmorecimento das reformas estruturais, perda de disciplina fiscal, expansão do crédito direcionado e incertezas sobre a estabilização da dívida podem elevar a taxa neutra. A conclusão política é direta: sem ajuste fiscal e avança nas reformas, a economia corre o risco de juros mais altos por mais tempo, com preço explícito para o consumo e para a confiança dos investidores.