Em seminário do JP Morgan em Washington, o diretor de Política Monetária do Banco Central, Nilton David, afirmou que a autarquia não conta com a valorização recente do real para levar a inflação ao centro da meta de 3%. A avaliação é que o comportamento favorável da moeda tem caráter conjuntural e, por isso, não pode servir de ancoragem para a política monetária.

O comentário ganha relevância porque, nas últimas sessões, o dólar recuou para patamares abaixo de R$ 5,00 em meio a expectativas de descompressão geopolítica entre EUA e Irã. Mesmo assim, David ressaltou que o real costuma ser mais volátil que pares e que desvalorizações exercem impacto ascendente nas expectativas de inflação com mais intensidade do que valorização as reduz — uma assimetria que limita o efeito deflacionário do câmbio.

Na prática, a mensagem aponta para uma postura cautelosa do BC: o processo atual de redução da Selic, iniciado em março com corte de 0,25 ponto para 14,75% ao ano, é tratado como 'calibração' e não como flexibilização. Com o aumento da incerteza externa, o mercado passou a precificar novo corte em abril, mas a autoridade deixa claro que seguirá guiada por dados e que encerrará o ciclo com taxa ainda em nível restritivo, se necessário.

Há consequências concretas dessa leitura. A mediana do Focus para 2028 subiu para 3,60%, posição que o BC classificou como incompatível com um banco empenhado em 'mirar a meta'. A combinação de câmbio volátil, expectativas ascendentes e risco geopolítico acende alerta para a credibilidade do regime de metas e complica qualquer sinal de afrouxamento mais rápido da política monetária, com impactos potenciais sobre crescimento e custo de financiamento.