O ciclo de afrouxamento monetário parece perto do fim. Na avaliação de Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management, os fundamentos domésticos não justificam nova redução da Selic: núcleos de inflação seguem acima do teto da meta, a inflação de serviços ligada ao mercado de trabalho roda perto de 7% e a economia mantém resiliência. Para Srour, trata‑se de um problema originado localmente, não por choques externos.
A lista de estímulos já anunciados e em execução é um ponto central na análise: equipe da UBS compilou medidas fiscais, de crédito e renda que somariam R$ 189 bilhões, com potencial adicional de R$ 30 bilhões se um novo programa nos moldes do Move Brasil avançar. Somados, esses fatores ampliam a demanda interna numa conjuntura em que a taxa neutra subiu — ou seja, a Selic atual pode ser menos restritiva do que o BC supunha quando iniciou os cortes.
Os mercados já incorporam a chance de um comunicado mais duro na reunião do Copom marcada para 16 e 17 de junho, e a sinalização oficial do Banco Central sobre uma possível pausa ainda é discreta. A consequência prática é clara: se o BC interromper o ciclo de queda, haverá pressão para manter juros mais elevados por mais tempo, com efeitos diretos sobre crédito, consumo e o custo do financiamento público.
Do ponto de vista político e fiscal, o quadro complica a narrativa governista: estímulos que estimulam a demanda podem se converter em maior custo econômico e político se pressionarem a inflação. Riscos de baixa ainda vêm do exterior — câmbio mais valorizado ou desaceleração global —, mas a tendência de curto prazo, dizem analistas, é um viés inflacionário doméstico que imporá escolhas delicadas ao Banco Central e ao governo.