O Banco Central reconhece os efeitos negativos de juros ainda na casa dos dois dígitos sobre a economia, mas admite ter pouco espaço para um afrouxamento mais expressivo. Em entrevista, o ex-diretor de Política Monetária Luiz Fernando Figueiredo descreveu os recentes cortes — de 15% para 14% após quatro reduções de 0,25 ponto desde março — como um 'ajuste fino', e não como reversão da postura contracionista.

A restrição vem, sobretudo, da política fiscal. Dados oficiais mostram que os gastos acumulados chegaram próximos do pico registrado na pandemia, e o ex-diretor lembra que a expansão extraordinária do ano, acima de R$ 200 bilhões fora da meta, funciona como um impulso de demanda. Esse cenário reduz a margem do BC para cortar mais rapidamente sem comprometer a âncora inflacionária.

O custo dessa combinação aparece no estoque da dívida. A Dívida Bruta do Governo Geral avançou a 81,9% do PIB em junho, chegando a cerca de R$ 10,4 trilhões — o maior nível desde abril de 2021. Movimentos como juros nominais apropriados e emissões líquidas explicam parte do avanço, e tornam mais sensível o impacto de qualquer decisão do Copom sobre o serviço da dívida.

Para Figueiredo, se os juros caírem apenas de forma marginal, o país caminha para um quadro com risco real de recessão no ano seguinte, porque o ajuste monetário necessário para conter essa deterioração fiscal ficaria comprometido. A conclusão é clara: sem mudança de rota nas contas públicas, o Banco Central tem pouco jogo — e a política econômica do governo acaba sujeita a custos cada vez mais elevados, com repercussões políticas e para o mercado.