O Banco Central Europeu enfrenta um dilema clássico de política monetária: expectativas de inflação em alta ao mesmo tempo em que o crescimento da zona do euro enfraquece. Pesquisas internas do BCE mostraram que a projeção de inflação para daqui a um ano saltou de 2,5% para 4,0% em março, e a expectativa para três anos subiu de 2,5% para 3,0% — ambas acima da meta de 2%. O movimento é atribuído, em parte, ao choque energético decorrente da guerra no Oriente Médio, que tem efeitos diretos sobre custos e formação de preços.
Apesar desses sinais de pressão sobre preços, o Conselho do BCE tem motivos para cautela: o crescimento já mostra sinais de fadiga e o aumento do custo da energia e das tarifas corrói margens empresariais. A própria pesquisa trimestral do banco indicou moderação nas expectativas de lucros e de salários entre empresas, o que aponta um freio à dinâmica inflacionária por via da demanda — porém, esse efeito pode demorar a se traduzir em queda sólida de preços.
A situação complica-se com o aperto do crédito. A pesquisa sobre empréstimos bancários revelou que os bancos apertaram critérios de aprovação mais do que o previsto nos três meses até março e esperam manter essa postura. Crédito mais caro e seletivo tende a reacender o freio ao crescimento, ampliando o trade-off entre domar a inflação e preservar atividade econômica. Em resumo: medidas que aliviam a inflação hoje podem aprofundar a desaceleração amanhã.
Na prática, o BCE deve manter as taxas na reunião de quinta-feira (30), segundo comunicação esperada, mas deixa em aberto a possibilidade de novos aumentos em junho. Analistas, como os da Oxford Economics, veem nas pesquisas motivos adicionais para considerar altas futuras, mesmo reconhecendo o custo que elas impõem à recuperação. O banco central terá que calibrar sua mensagem para evitar ancoragem inflacionária desfavorável, sem acelerar um aperto que complique ainda mais a retomada econômica.