Uma pesquisa trimestral do Banco Central Europeu com 76 grandes empresas da zona do euro mostra que as companhias vêm conseguindo repassar menos do que o esperado os custos mais altos — especialmente os derivados do petróleo — para o consumidor. As entrevistas ocorreram entre 22 de junho e 1º de julho. O BCE manteve as taxas de juros na véspera e deixou em aberto a possibilidade de novo aumento em setembro, apontando que ainda há poucos sinais de que choques nos combustíveis estejam se traduzindo em salários ou em expectativas de inflação de longo prazo.
Os números do levantamento confirmam uma diferença importante entre setores: cerca de 40% das empresas relataram aumento de preços em seus ramos, sobretudo em bens intermediários e transporte, e produtos petroquímicos chegaram a subir entre 20% e 30%. Já os setores mais próximos do consumidor registraram “pouco ajuste”, com famílias muito sensíveis aos preços e migração para marcas próprias — o que contribuiu para que 40% das empresas informassem redução de margens porque os custos não foram repassados integralmente.
A concorrência de fabricantes chineses e de importações asiáticas mais baratas amplifica esse efeito, pressionando preços e forçando esforços de competitividade. Ao mesmo tempo, a pesquisa cita um boom em investimentos relacionados à inteligência artificial, que tem puxado gastos empresariais; porém, preocupações sobre competitividade levaram fabricantes a deslocar investimentos para a Ásia ou Europa Oriental, em vez da própria zona do euro. Esse deslocamento pode reduzir capacidade produtiva local e pressionar emprego e crescimento no médio prazo.
Para o BCE, a fraca transmissão dos custos ao consumidor reduz o risco imediato de uma inflação persistente, mas cria um dilema: taxas mais altas para conter inflação podem corroer ainda mais margens e atividade. No plano econômico e político, a combinação de margens comprimidas, competição externa e realocação de investimentos exige resposta coordenada — não só monetária, mas também industrial e fiscal — se a zona do euro quiser preservar capacidade produtiva e evitar que a luta contra a inflação custe empregos e soberania industrial.