O Bank of America surpreendeu o mercado ao revisar a projeção da Selic e passar a apostar em cortes de 25 pontos-base em todas as reuniões do Copom até o fim do ano, fazendo a taxa encerrar o período em 13,25%. A leitura do banco contrasta com a expectativa mais conservadora do mercado, que havia calculado apenas o corte imediato — para 13,75% — refletido na mediana do boletim Focus.
No centro da mudança de convicção estão três argumentos apresentados pelo BofA. Primeiro, a inflação subjacente mostra sinais de melhora: o IPCA caiu 0,32% em agosto, após alta de 0,07% no mês anterior, o que alivia o argumento técnico para manter juros no patamar atual. Segundo, a atividade perde fôlego — o PIB avançou modestos 0,5% no 2º trimestre ante o trimestre anterior, com consumo das famílias recuando 0,4% — e a inadimplência da carteira total subiu a 4,9% em julho, pressionando o crédito.
O terceiro ponto, considerado pelo banco o mais relevante, é que mesmo após cortes adicionais a política monetária permaneceria relativamente restritiva. Pelo BofA, há margem para afrouxamento sem que a postura deixe de ser prudente, razão pela qual espera comunicações do Copom mais abertas a novos cortes nas próximas atas e comunicados.
Do ponto de vista político e de mercado, a tese do BofA amplia a divisão sobre o ritmo do afrouxamento: se confirmada, reduz o custo do crédito e dá algum alívio ao consumo, mas também exige do Banco Central equilíbrio para manter credibilidade caso a inflação recue menos do que o esperado. O comunicado do Copom na próxima reunião será, portanto, monitorado com atenção redobrada por investidores e formuladores de política.