Há um ano, no início da disputa comercial entre Ottawa e Washington, a maioria das lojas provinciais de bebidas do Canadá retirou produtos americanos das prateleiras em resposta a tarifas dos EUA. A reação canadense ganhou nova dimensão quando a Casa Branca anunciou tarifas de 50% sobre produtos canadenses, classificando os boicotes como imposições e discriminações injustas.

O impacto já aparece nos números: as exportações de bebidas destiladas dos EUA caíram 3,8% em 2025, segundo o Distilled Spirits Council of the United States. Do lado canadense, a distribuidora provincial SAQ reportou crescimento de 69,4% nas vendas da linha 'Origine Québec' e empresas como a Distillerie de Montréal, na avaliação de Isabelle Leduc, registraram alta próxima a 35% em destilados.

Essa transferência de demanda, porém, tem limites. Pequenas destilarias celebram maior espaço nas prateleiras, mas muitas são incapazes de escalar produção rapidamente. Paul Cirka, da CIRKA Distilleries, relata aumento de procura, porém estoque e capacidade produtiva reduzem o ganho econômico real. Em Ontario, produtores também dizem ter mais distribuição, mas relativizam a contribuição direta do boicote.

Politicamente, a medida fortalece unidade e identidade econômica local — como aponta Paul Goulet, do setor — e os líderes provinciais dizem não recuar. Para o governo dos EUA, as novas tarifas elevam o custo político e econômico da disputa. O saldo é claro: o boicote produziu efeito real e beneficiou setores locais, mas esbarra em capacidade produtiva e tende a prolongar um atrito com consequências comerciais e institucionais que só serão resolvidas pela negociação.