O Banco do Japão optou por manter a taxa básica em 0,75% ao ano após reunião de dois dias, mas a leitura do comunicado deixou claro um deslocamento de postura. Seis membros do conselho votaram pela manutenção e três foram favoráveis a um aumento, sinalizando uma ala mais hawkish. Ao mesmo tempo, o banco elevou as projeções de inflação e reduziu as expectativas de expansão econômica — uma combinação que complica o roteiro da política monetária.
No relatório trimestral, o BoJ revisou para cima a previsão de inflação subjacente (excluindo alimentos frescos): agora projeta 2,8% no ano encerrado em março de 2027, ante 1,9% previsto em janeiro. As estimativas caem para 2,3% no ano seguinte e 2,0% no período seguinte. Para o crescimento, o banco cortou a projeção do atual ano fiscal para 0,5% (era 1,0%) e prevê 0,7% e 0,8% nos dois anos subsequentes. O relatório incluiu ainda as primeiras estimativas para o ano fiscal que termina em março de 2029.
O BoJ deixou explícito o peso do choque nos preços de energia e o efeito da busca por segurança no dólar, que enfraquece o iene e tende a pressionar ainda mais os preços ao consumidor. Diante desse cenário, o conselho alertou que elevará as taxas caso a inflação siga o ritmo projetado, definindo momento e ritmo conforme a evolução dos dados — inclusive os impactos do conflito no Oriente Médio. Muitos economistas já estimam uma alta para 1% na próxima reunião, em junho.
A decisão marca um fim gradativo da fase de acomodação prolongada e traz consequências imediatas para mercados e decisões corporativas: maior volatilidade cambial, pressão sobre custos importados e potencial elevação dos juros globais se outros bancos centrais mantiverem a rigidez. Para o Japão, o desafio é calibrar a resposta sem sufocar uma recuperação frágil — erro de comunicação ou ajuste precipitado podem elevar o custo do crédito e prejudicar famílias e empresas num momento de ganho limitado na atividade.