O rali que colocou o Ibovespa no radar dos recordes no começo de 2026 perdeu força nas últimas semanas, e a leitura entre analistas e gestores é de que o mercado entrou em fase de maior cautela. Janeiro concentrou entrada recorde de capital estrangeiro — R$ 26,31 bilhões —, mas em maio houve retirada líquida de R$ 14,91 bilhões no mercado secundário, segundo levantamento da Elos Ayta. O saldo acumulado entre janeiro e maio segue positivo, em R$ 41,63 bilhões sem considerar ofertas; incluindo IPOs e follow‑ons, sobe para R$ 43,78 bilhões.
Especialistas consultados destacam motivos convergentes, sem unanimidade absoluta. Uma parcela dos recursos reaplicou nos Estados Unidos, onde empresas de tecnologia e temas ligados à inteligência artificial renovaram máximas e atraíram capitais. Gustavo Trotta, da Valor Investimentos, aponta que o valuation do Brasil continua competitivo diante de emergentes, mas perdeu tração no curto prazo. Para Eduardo Levy, da LB Endow, parte do movimento foi realização de lucros após valorização das ações e do real.
Há também fatores estruturais que complicam a retomada firme: a persistência da inflação elevou projeções e adiou a expectativa de queda rápida dos juros, o que afeta crédito e atividade; e a situação fiscal segue sendo uma preocupação citada por agentes. Beto Saadia, da Nomos, atribui ainda impacto à temporada de balanços nos Estados Unidos, que reforçou a migração global para empresas de tecnologia e diminuiu o apetite por mercados mais sensíveis ao ciclo doméstico.
Combinadas, essas variáveis têm um efeito claro sobre a dinâmica do restante do ano: as eleições presidenciais tendem a dominar a volatilidade. Analistas esperam que o terceiro trimestre concentre momentos de maior nervosismo, com divulgação de pesquisas e intensificação do debate político. Para o governo, isso significa que qualquer sinal fiscal negativo ou incerteza sobre rumo econômico pode traduzir‑se rapidamente em pressão sobre ativos e custos de financiamento, exigindo respostas mais claras para recuperar confiança dos investidores.