O comportamento recente das bolsas mostra uma desconexão aparente entre mercado e geopolítica: enquanto a guerra no Irã elevou incertezas sobre oferta de energia — com o fechamento efetivo do Estreito de Ormuz no início de março, que interrompeu cerca de um quinto do fornecimento global de petróleo — índices nos EUA e em países asiáticos renovaram máximos nas últimas semanas. S&P 500, Nasdaq, Nikkei 225, Kospi e Taiex registraram altas expressivas, sustentadas em grande parte pela valorização de empresas ligadas a inteligência artificial (IA) e semicondutores.

A dinâmica setorial ajuda a explicar a resistência: o boom por infraestrutura e aplicações de IA ampliou a demanda por chips, beneficiando mercados como Coreia do Sul, Taiwan e Japão. O Kospi teve desempenho extraordinário — acumulando alta próxima a 75% em 2025 — e empresas como Samsung Electronics superaram a marca de US$ 1 trilhão em valor de mercado, ao lado de gigantes como a TSMC. Em Taiwan, o índice Taiex subiu cerca de 16% desde o início do conflito e acumula ganhos relevantes no ano.

Ao mesmo tempo, a exposição distinta à energia permanece um elemento de vulnerabilidade. Estados Unidos são, hoje, exportadores líquidos de energia; Japão e Coreia do Sul continuam grandes importadores. Isso torna suas economias mais sensíveis a choques de preço do petróleo — que podem corroer consumo, pressionar margens industriais e complicar metas de inflação e política monetária. A valorização concentrada em setores de tecnologia tem mascarado esses efeitos sistêmicos, criando risco de reprecificação caso a guerra se intensifique ou se os preços do petróleo permanecerem elevados.

Para investidores e formuladores de política, a notícia é dupla: há ganhos reais ligados ao avanço da IA e à cadeia de semicondutores, mas a aparente blindagem das bolsas não elimina o custo econômico do conflito. A lição é que a atual euforia setorial reduz, mas não anula, a exposição a choques externos — e aumenta a necessidade de avaliação de concentração de risco nos portfólios e de preparação fiscal e energética por parte dos governos.