O avanço acelerado dos data centers nos Estados Unidos — impulsionado pela demanda por infraestrutura para inteligência artificial — gerou um efeito colateral direto: a formação de um novo e lucrativo mercado jurídico. Projetos que antes eram aprovados com facilidade, por se assemelharem a prédios de escritórios e gerarem pouco tráfego, passaram a enfrentar resistência crescente nas comunidades e nas câmaras municipais. Em áreas como a região de Phoenix, onde o setor virou polo, advogados que antes dedicavam parcela pequena do trabalho aos centros de dados hoje concentram a maior parte de sua prática nesse tipo de projeto.

A reação local se traduziu em instrumentos políticos e jurídicos concretos: mais de 300 jurisdições em 44 estados adotaram moratórias ou restrições a novas instalações. Ao mesmo tempo, surgiram ações coletivas por vizinhos e grupos de advocacy, além de litígios sobre uso do solo, ruído, consumo de água e conformidade energética. Para as empresas, isso significa não apenas mais tempo em tribunal, mas também custos maiores para obter licenças e lidar com reguladores municipais mais cautelosos ou hostis.

Do lado profissional, a resposta do mercado jurídico foi rápida. Grandes escritórios têm promovido equipes especializadas em data centers e infraestrutura digital, reunindo advogados de energia, regulatório e imobiliário. Levantamentos do setor apontam que cerca de um terço dos grandes escritórios já estruturou práticas dedicadas ao tema. A necessidade crescente de assessoria em energia — dada a intensa demanda por eletricidade desses parques — e por estratégias para gestão do consumo de água elevou a procura por sócios e especialistas com experiência específica.

O resultado é uma dupla leitura política e econômica. Para investidores e municípios, os data centers representam atração de capital e empregos e absorção de investimentos relevantes. Para a administração local e eleitores, a equação é outra: custo ambiental, pressão sobre infraestrutura hídrica e energética e maior litigiosidade. Em última instância, a politização dos projetos tende a retardar obras, elevar custos e forçar concessionárias e construtores a negociar contrapartidas — enquanto os escritórios de advocacia colhem um novo fluxo estável de horas faturáveis.