Um diagnóstico contundente do mercado privado reacende o debate sobre controles de gasto no Brasil. A economista-chefe do Inter, ao comentar relatório conjunto do Ministério do Planejamento e do Ministério da Fazenda, destaca que o Benefício de Prestação Continuada (BPC) cresceu entre 60% e 70% em termos reais nos últimos quatro anos e já representa um dos principais desafios para o equilíbrio das contas públicas. No documento, os R$ 14 bilhões associados ao BPC e outros R$ 11,5 bilhões em benefícios previdenciários aparecem como as despesas que mais pressionam o Orçamento.

Para a analista, o problema não é apenas a magnitude atual do gasto, mas a ausência de mecanismos de controle: o BPC tem avançado a uma taxa real de cerca de 15% ao ano, ritmo muito superior ao da arrecadação. Esse descompasso compromete previsões orçamentárias futuras e cria um problema estrutural ao oferecer um incentivo implícito à não contribuição previdenciária, o que, na avaliação de especialistas, pode corroer os efeitos pretendidos pela reforma da Previdência.

A avaliação do Inter também chama atenção para a estratégia do governo em lançar programas que, embora aparentemente evitem impacto fiscal imediato por meio de fundos, subsídios e uso de bancos públicos, acabam por minar a credibilidade do ajuste. Segundo a análise, a combinação de medidas fiscais e parafiscais tende a desancorar expectativas — reflexo que já aparece, por exemplo, na remuneração dos títulos públicos, atualmente acima de 7,5% — e a reduzir a confiança do mercado na disciplina orçamentária.

O diagnóstico aponta consequências concretas: o governo não avançou de forma efetiva no ajuste fiscal nos últimos quatro anos, ganhos de receita foram consumidos por vinculações e aumento de despesas discricionárias, e a conta a pagar exige medidas adicionais. A estimativa apresentada pelo Inter é clara quanto à ordem de grandeza do esforço necessário: um ajuste mínimo de dois pontos percentuais do PIB para transitar de um déficit modesto (entre 0,5% e 0,7%) para um superávit de cerca de 1% a 1,5%. A escolha por correções no desenho do BPC e por maior controle das despesas será, portanto, também uma decisão política — com custo e exigência de prioridade administrativa e fiscal.