Representantes das principais entidades do setor automotivo do Brasil e da Argentina se reuniram em Buenos Aires e selaram uma declaração de convergência para modernizar a chamada Política Automotiva Bilateral (ACE 14). Sindipeças e Anfavea, pelo lado brasileiro, e Adefa e Afac, do lado argentino, definiram princípios e um horizonte: tentar estabelecer novas regras antes de 2029 para atrair investimentos e fortalecer a integração produtiva.

O movimento ganha sentido diante de mudanças rápidas no mercado global e do avanço das montadoras chinesas na região. Em fevereiro, um carro elétrico da BYD liderou as vendas no varejo no Brasil, com 4,1 mil unidades emplacadas no mês — um sintoma da competição que pressiona fabricantes locais. Só no último triênio, as indústrias do bloco registraram mais de US$ 22 bilhões em investimentos; o setor responde por cerca de 20% do PIB industrial brasileiro e 8,4% do argentino.

Entre os pontos acordados estão a especialização produtiva entre os dois países, o fortalecimento de cadeias de valor locais — com foco em autopeças de maior complexidade tecnológica —, a harmonização de normas técnicas (inclusive para reposição) e a facilitação de processos aduaneiros nas fronteiras. A meta declarada é criar um ambiente que torne o corredor automotivo mais competitivo frente à sobreoferta global e às tensões geopolíticas.

Analiticamente, o pacto representa tanto oportunidade quanto desafio. Se bem implementado, pode ampliar atração de investimentos e preservar empregos industriais; se ficar no papel, a região corre o risco de perder espaço para concorrentes externos e ver aumentar a dependência de importações. A responsabilidade recai sobre governos e reguladores: será preciso traduzir a convergência setorial em medidas concretas e rápidas, sob pena de reduzir a margem de manobra da indústria na próxima década.