O Brasil perdeu espaço no principal tema de investimentos de 2026 — a inteligência artificial — e sofre as consequências na forma de saída de capital estrangeiro da bolsa, avalia Gustavo Spinola, estrategista-chefe da Sincra, em entrevista ao CNN Prime Time. Para Spinola, embora o fluxo para mercados emergentes apresente semanas positivas, esse movimento é concentrado em países com ligação direta ao ecossistema de tecnologia, deixando o país em posição secundária perante investidores globais.
O efeito prático é claro: recursos migram para economias percebidas como beneficiárias diretas da revolução da IA — Spinola cita Coreia do Sul e Taiwan como grandes vencedoras, com a Índia também se destacando por sua ligação ao setor de tecnologia. Nesse contexto, emergentes atrelados a commodities, como boa parte da América Latina e a África do Sul, acabam menos favorecidos. O estrategista lembra ainda a dimensão do tema: são, segundo ele, mais de 700 bilhões de dólares em projetos em IA só neste ano, um volume que direciona o apetite global por ações de tecnologia.
A combinação entre essa preferência setorial e fatores domésticos cria um ambiente desafiador. O enquadramento atual acende alerta para a capacidade do Brasil de atrair investimentos de maior valor agregado: falta conectividade visível com cadeias tecnológicas e, sobretudo, sinalização econômica e fiscal que reduza a volatilidade percebida pelos estrangeiros. No curto prazo, a aproximação do calendário eleitoral de 2027 tende a ampliar a cautela — investidores frequentemente optam por aguardar sinais mais claros antes de aumentar exposições a mercados considerados mais arriscados.
Spinola ressalta, porém, que a própria narrativa de IA não é inquestionável: o setor já mostrou capacidade de alterar vencedores e perdedores em ciclos curtos, à semelhança da evolução das redes sociais. Isso significa que oscilações no uso e na adoção de tecnologias podem provocar vendas expressivas, o que momentaneamente poderia favorecer retornos para ativos brasileiros se houver reversão abrupta do fluxo. Ainda assim, sua conclusão sobre 2026 é firme: o saldo deve favorecer a IA em detrimento das commodities.
Do ponto de vista prático, a lição é administrativa e fiscal. Para converter posição geográfica e recursos naturais em vantagem competitiva no novo ciclo, o país precisa clareza de regras, melhoria na infraestrutura digital e sinais consistentes de responsabilidade fiscal que reduzam o prêmio de risco. Sem esses elementos, a tendência é que o Brasil permaneça preterido em decisões de alocação global, pagando um custo econômico em termos de menor valorização da bolsa e menor entrada de capital estrangeiro.