O Ministério da Defesa formalizou em portaria, publicada em março, o modelo conhecido como G2G — governo para governo — para operações de exportação de produtos de defesa. O mecanismo, já usado por potências como EUA e França, prevê que a negociação seja conduzida entre estados, com o país vendedor atuando como garantidor e facilitador mesmo quando a entrega é feita por empresas privadas. Exemplos internacionais, como a venda dos caças Gripen por meio de contrato com o governo sueco, servem de referência para a iniciativa brasileira.
Na prática, a norma institui um rito: um governo estrangeiro manifesta interesse por meio de ofício, carta ou e-mail dirigido ao secretário de Produtos de Defesa, podendo indicar a estatal vinculada para intermediar a operação ou solicitar indicação do ministério. A portaria deixa claro que a participação da estatal depende de anuência e não cria obrigação de ressarcimento ao erário em caso de prejuízo. Também admite que o contrato final seja celebrado entre o comprador e uma empresa privada da Base Industrial de Defesa, com a estatal atuando como canal institucional. Na Fidae, no Chile, o ministério assinou memorandos com Alada, EMGEPRON e IMBEL para consolidar esse arcabouço.
A medida materializa uma estratégia em debate desde 2025 e pode trazer benefícios objetivos: ampliar mercados, reduzir riscos comerciais para fabricantes nacionais e tornar propostas brasileiras mais competitivas em vendas sensíveis. Ao mesmo tempo, a iniciativa acende alerta sobre a necessidade de controles robustos. A participação formal de estatais como ponte institucional tende a aproximar público e privado e exige regras claras contra favorecimentos, procedimentos de fiscalização e transparência sobre custos e responsabilidades.
Do ponto de vista político e institucional, o avanço regulatório representa uma oportunidade para acelerar exportações, mas também pode gerar pressão por esclarecimentos no Congresso e suscitar questionamentos de órgãos de controle caso faltem salvaguardas. Se bem implementada, a portaria amplia a capacidade de inserção internacional da indústria de defesa; se houver ambiguidade na governança, o modelo corre o risco de produzir custos políticos e dúvidas sobre o uso de ativos públicos em operações comerciais.