Um estudo da Cisco posiciona o Brasil à frente na adoção de inteligência artificial aplicada à indústria: 66% das empresas do setor afirmam usar IA em suas operações, e 38% dizem ter implementações maduras em larga escala. No comparativo global, a média de adoção é menor (61%) e apenas 20% reportam maturidade semelhante. O levantamento, feito com mais de 1.000 tomadores de decisão em 19 países, aponta ainda que 86% das organizações brasileiras planejam aumentar investimentos em IA — frente a 83% no resto do mundo.

Os números são bons para a produtividade potencial do país, mas não podem ser lidos apenas como vitória tecnológica. A pesquisa destaca que apenas quem trata infraestrutura, cibersegurança e colaboração entre equipes de TI e operação como prioridade consegue escalar soluções. Em outras palavras: a adoção concentra-se onde houve gastos adicionais e reestruturação organizacional, o que expõe um risco de desigualdade entre plantas, empresas e regiões.

Do ponto de vista econômico e fiscal, o salto em IA pode render ganhos de eficiência e competitividade, mas exige aplicação responsável de capital privado e, eventualmente, políticas públicas de apoio para formação de mão de obra e modernização de infraestrutura. Sem essas medidas, há o perigo de que investimentos se limitem a provas de conceito ou criem ganhos concentrados, com pouco reflexo em emprego qualificado ou arrecadação mais ampla.

Para aproveitar a vantagem apontada pela Cisco, empresários e governo precisam transformar intenção em arranjos concretos: normas claras de segurança cibernética, incentivos à integração entre tecnologia e operação, programas de formação técnica e fiscalização que garantam retorno social e econômico. Caso contrário, o Brasil corre o risco de ter estatísticas de adoção positivas sem o efeito transformador esperado na produtividade e na competitividade industrial.