A nova onda de valorização das empresas ligadas à inteligência artificial reposicionou o mapa de investimentos globais e deixou o Brasil em segundo plano. O resultado da Nvidia divulgado nesta quarta-feira (20) — novamente acima das expectativas — reforçou a crença de que chips, data centers e capacidade computacional serão o motor do fluxo internacional. Em um movimento que chamou atenção, o S&P 500 recuperou uma queda superior a 10% em apenas 11 dias, sinalizando um retorno rápido ao risco impulsionado por tecnologia.
O contraste com o desempenho brasileiro explica parte da perda de protagonismo. No início do ano, o Ibovespa acumulou alta próxima de 22% até fevereiro, mas andou de lado nos meses seguintes. Enquanto mercados diretamente expostos à IA, como Coreia do Sul e Taiwan, avançaram 43% e 32% respectivamente, a cesta de segmentos ligados a semicondutores, memória e infraestrutura digital subiu 42% entre abril e maio e chega perto de 90% no ano, segundo a gestora WHG. Setores que dominam a B3 — bancos, commodities, energia e consumo doméstico — não participam plenamente desse ciclo.
Os dados de fluxo confirmam a mudança de preferência: após liderar ingressos entre emergentes no começo do ano, a B3 passou a registrar saídas líquidas em maio, reflexo da migração de parte do capital internacional para temas mais diretamente conectados à revolução tecnológica. Isso não significa que o Brasil perdeu atratividade por completo: juros elevados, valuations relativamente baixos e exposição a commodities continuam oferecendo argumentos para investidores com perfil distinto do capital que hoje favorece empresas de IA.
Para a política econômica e para as empresas brasileiras, o desafio é claro. A dissociação entre composição setorial e o principal tema que mobiliza recursos no exterior complica a narrativa de atração de capitais e amplia a vulnerabilidade a alterações de fluxo. A curto prazo, o país pode conviver com desempenho relativo inferior; a médio prazo, recuperar protagonismo exigirá sinais concretos de diversificação do mercado acionário e de atração de investimentos em tecnologia — requisitos que passam por escolhas do setor privado e por políticas que estimulem projetos de maior intensidade tecnológica.