Diante do chamado 'tarifaco' imposto pelos Estados Unidos, o governo brasileiro intensificou o eixo Índia como alternativa para diversificar mercados e proteger setores exportadores. Em visita recente, o ministro Márcio Elias (Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) acertou a organização, em Brasília, de uma rodada de negócios com uma missão da Confederação Industrial da Índia no fim deste mês, com foco nos segmentos mais afetados pelas barreiras americanas.

A aproximação ocorre em meio a dados que justificam a aposta: no primeiro semestre as exportações brasileiras à Índia cresceram 84% ante igual período do ano passado, alcançando US$ 5 bilhões. A pauta concentra-se em petróleo bruto, óleo de soja, cobre, açúcar, algodão e minério de ferro. O acordo de preferências Mercosul-Índia, de 2004, cobre apenas 450 categorias; a proposta oficial é ampliar esse universo enquanto o governo persegue a meta, anunciada em 2025, de chegar a US$ 20 bilhões até 2030 (o fluxo em 2023 foi de cerca de US$ 12 bilhões).

A movimentação tem caráter reativo e preventivo: além das tarifas de 12,5% aplicadas pelos EUA a vários parceiros, o Brasil enfrenta efeitos da Seção 301 e pressões sobre cadeias produtivas. A intensificação do diálogo com Nova Déli mostra realismo comercial, mas esbarra em riscos — a própria Índia também foi alvo de tarifas americanas e investigações do USTR sobre sobrecapacidade industrial. Ampliar preferências tarifárias exige negociações técnicas e concessões recíprocas, e não há garantia de ganhos automáticos para todos os setores afetados.

Há, porém, sinais concretos: além da rodada de negócios, o governo cita a possibilidade de uma fábrica de fertilizantes da IFFCO no Paraná, projeto que pode reduzir custos para o agronegócio e ampliar confiança nos laços industriais. A missão indiana a chegar em Brasília em 28 de agosto será um termômetro: serve como oportunidade para converter contatos em acordos comerciais e investimentos, mas exigirá agilidade e clareza nas propostas brasileiras para produzir efeito real sobre exportadores e cadeias produtivas.